
Álvaro Valls começa seu discurso em relação à ética com a seguinte frase: “A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar quando alguém pergunta”. Em seguida se socorre de estudos filosóficos e até teológicos para tentar elucidar tantas dúvidas a respeito de um tema tão complexo.
As questões éticas convivem conosco diariamente e costuma-se separá-las em dois campos: num, os problemas gerais (como liberdade, consciência, bem, valor, lei e outros); e no segundo, os problemas específicos (ética profissional, política, sexual, matrimonial etc.). É um procedimento didático ou acadêmico, porque na prática eles não vêm assim separados.
Existe ainda outra temática especificamente ética merecedora de atenção: A cultura e os costumes mudam no decorrer do tempo e o que era errado, hoje pode ser considerado certo. Porém, a equação não é tão simples assim. É claro que a ética precisa ter uma função descritiva, preocupando-se também com estudos de antropologia e semelhantes, os costumes das diferentes épocas e lugares. No entanto, só há registros do comportamento humano, dos últimos milênios, embora o homem já esteja por aí há muito mais tempo.
Só chegaremos a descobrir qual é a ética vigente numa ou noutra sociedade, através de documentos não escritos ou mesmo não-filosóficos (pinturas, esculturas etc.). Não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os acompanham, as normas, os ideais, a sabedoria, de um povo ou de outro.
Na Idade Média, por exemplo, duas vertentes se chocavam: o incesto (até o sétimo grau) era pecado mortal, mas como a maioria era analfabeta e ignorava a genealogia, ficava fácil para os nobres casarem-se e descasarem-se com quem bem entendessem até conseguirem o seu filho varão, por causa da linhagem, do nome, da herança. Hoje, teríamos de nos perguntar qual a importância dessa regulamentação ética, numa época de capitalismo, onde a maioria enriquece ou empobrece exclusivamente por seu esforço pessoal. Então, não haveria uma ética absoluta? Não teria o Cristianismo trazido essa ética? Max Weber, pensador alemão do início de nosso século, mostra que essa ética não era simples e nem acessível, pois os protestantes sempre valorizaram mais o trabalho e a riqueza, enquanto os católicos davam valor à abnegação, à pobreza e ao sacrifício.
O filósofo grego Sócrates foi chamado, muitos séculos depois de sua condenação a beber veneno, de “o fundador da moral”, porque sua ética não se baseava simplesmente nos costumes do povo, mas sim na convicção pessoal, adquirida através de um processo de consulta ao seu “demônio interior”, na tentativa de compreender a justiça das leis. Este movimento de interiorização começa com Sócrates e culmina com Kant (século XVII) que defendia o agir livre do homem. Após o Iluminismo (ascensão da burguesia, igualdade entre os homens) Kant precisa chegar a uma moral igual para todos, moral que se interesse pelos aspectos exteriores, empíricos e históricos.
Legalidade e moralidade se tornam dois opostos porque agora o que temos é a “forma” do dever (leis), o chamado “imperativo categórico”, o qual tem este nome por ser uma ordem formal nunca baseada em hipóteses: “Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”.
Não somente Sócrates, na Grécia antiga, foi importante para o surgimento de muitas ideias e teorias que até hoje nos acompanham; vale a pena salientar a colaboração de Platão e Aristóteles, responsáveis pela reflexão e pesquisa do que era o bem moral, embasados no contexto religioso, princípio de muitas teorias éticas. Platão pregava a imortalidade da alma e esperava a felicidade para depois da morte. O homem deveria procurar a contemplação da ideia do Bem. O homem deve desprender-se do corpo, do terreno e do mundano, para encontrar-se com o mundo ideal, imutável e eterno. Aí está o Sumo Bem para Platão. As principais virtudes para o filósofo era: justiça, prudência, fortaleza e temperança.
Aristóteles, além de grande pensador, era um psicólogo preocupado com a observação empírica, revelando seu talento especulativo, analítico e comparativo. Ao contrário da teoria platônica do Sumo Bem, a teoria aristotélica defende que os Bens variam de acordo com os seres; sem um conjunto de tais bens não há felicidade; o homem tem o seu viver no viver, no sentir e na razão.
A religião desses pensadores gregos era ainda bastante naturalista (sendo os mitológicos deuses quase personificações de forças naturais). Com a religião judaica, a questão se modifica. O Deus de Jacó não se identifica com as forças da natureza, porque está acima delas. Em relação à religião de Abraão, Jesus Cristo prega o amor, principalmente o que vem de cima: Deus.
A religião trouxe indubitavelmente, um grande progresso moral à humanidade. Porém, não se pode negar que os fanatismos religiosos mandaram, muitas vezes, a mensagem ética da liberdade, do amor, da fraternidade universal. O pensamento ético que conhecemos está, por tanto, muito ligado à religião, à Bíblia e a teologia.
Pensadores como Kant e Sartre, tentam formular teorias éticas aceitáveis pela pura razão. Já pensadores como Hegel, Schelling, Kierkegaard e Gabriel Marcel, ou mesmo Martin Buber, discutem apenas a maneira de relacionar as doutrinas religiosas com a reflexão filosófica.
Os ideais da vida ética, como podemos observar até aqui, variam muito de acordo com o espaço, a cultura, o tempo. Para os gregos, os ideais éticos estavam na busca de ideia do Bem (Platão), da busca pela felicidade (Aristóteles), na vida natural (os estóicos), na busca pelo prazer (Epicuristas). Para os cristãos, o homem tinha que viver para Deus. O lema socrático do “conhecer-te a ti mesmo” volta à tona, em Santo Agostinho, que agora ensina que “Deus é mais íntimo do que nosso próprio íntimo”; o ideal é o de uma vida espiritual. Já para a burguesia, que começava sua hegemonia no Renascimento e Iluminismo (século XV a XVII), o ideal era viver de acordo com a própria liberdade pessoal. Para Kant, a autonomia individual era critério de moralidade. Para Hegel, o ideal estava numa vida livre dentro de um Estado Livre, que preservasse o direito dos homens e lhes cobrasse seus deveres. E por falar em Estado Livre, é bom lembrar que ao falar de ética, estamos falando de liberdade. Porém, ética também lembra responsabilidade e olha o paradoxo novamente! Também não tem sentido o encaixe do determinismo nessa discussão, pois se a ética se refere às ações humanas, e se elas são determinadas de fora para dentro, onde entra a liberdade? Já o extremo oposto ao determinismo acredita numa liberdade total e absolutamente incondicionada, ou seja, poder pensar mas não poder agir. Esse é o pensamento estóico, que com a afirmação desse pensamento abstrato, penetrou no Cristianismo gerando exageros e tendendo para o lado puramente “interior”.
Para o pensador da burguesia, Kant, o ideal ético era a autonomia individual; tentando suplantar esse pensamento Kantiano o filósofo alemão Hegel, afirmava que, não é possível um ideal ético sem um Estado de direito, moderno e constitucional, onde cada um fosse livre, mas obedecendo às leis e organizações sociais – “Liberdade Organizada”.
Essa teoria de Hegel foi duramente criticada por Karl Marx. Para ele o Estado seria, de fato, um instrumento a mais de poder na mão do mais forte e não o universal harmonizador. Outros pensadores também discordaram da teoria de Hegel, como Kierkegaard (século XIX), e Jaspers, Heidegger, Mearleau – Ponty e Sartre, no século XX. Eles defendem que Hegel teria esquecido a dimensão propriamente humana e individual da liberdade, menosprezando a singularidade individual.
S. Kierkegaard, pensador dinamarquês, e grande admirador dos gregos, confrontou o pensamento grego antigo com o cristão e percebeu que para os gregos o “pecado” seria apenas “ignorância”. Afirmava, através de suas fontes (São Paulo, por exemplo), que o homem pode conhecer o bem e preferir o mal e justamente por isso, a ética estaria prejudicada. Por meio de seu livro “O Conceito de Angústia” descreve, como outros psicólogos posteriores, não só a angústia que o homem sente diante do mal, mas também a que sente diante do bem, quando preferiu o mal. Descreve também que a ética grega era, no fundo, apenas estética. A norma grega de buscar o belo e o bom se resumiria à busca da beleza, do prazer, de tudo que era agradável.
De maneira semelhante se poderia dizer que a ética medieval, na cristandade, era, no fundo, um comportamento religioso e não ético, pois ele era norteado pelos mandamentos divinos. Apesar disso, um filósofo e teólogo como Tomás de Aquino, por exemplo, dava muita importância sim à consciência moral, aquela voz interior que nos diz o que fazer de bem ou de mal.
Por mais que variem as discussões filosóficas éticas ou mesmo a situação histórica e geográfica, algumas noções permanecem arraigadas dentro de nós. A distinção entre o bem e o mal, por exemplo, o agir eticamente e de acordo com o bem etc. O que não podemos esquecer é que há de se ir além do discurso e exercitar a ética, pois ela é ciência prática e não teorica, buscando dentre todos esses pensamentos uma forma harmoniosa de viver.
Ainda seguindo o pensamento de Hegel, hoje em dia, os grandes problemas éticos seriam família, sociedade civil e Estado. Reflexões sobre o relacionamento familiar, homossexualismo, filhos e pais, a falta de trabalho, necessidade de reformas políticas etc. reforçam a atualidade não só da linha de pensamento de Hegel, mas de muitos outros pensadores antigos e pós-modernos (Adorno e Horkheimer).
Com a leitura de “O que é Ética”, de Álvaro Valls, é possível mergulhar não só em “O Mundo de Sofia” (livro que discorre sobre a história da filosofia) mas principalmente, em um campo extremamente complexo e difícil, que é a Ética. Porém, é de absoluta importância o seu entendimento, bem como seu estudo mais profundo para que tentemos administrar todas as vertentes éticas e morais subjugadas a tão brilhantes pensadores. As dúvidas existem, mas o que importa são as discussões acerca desse tema é o elas nos deixarão de perene.
Se for possível diante de todos os conceitos assimilados, alcançar um ideal ético e adequar-se a si mesmo e a sociedade, já é um excelente ponto de partida. Parece que a palavra-chave é o “discernimento” e, quem sabe, desejar sorte também ajude!
TED 1 Legislação e Ética em Comunicação
por Mônica Fraga